sábado, 21 de fevereiro de 2015

Eu. falar. Língua do Camões.

Para mim é das coisas que me dão mais gosto em Erasmus (para além da comida e da bebida, que vêm em primeiro lugar, não necessariamente pela ordem em que foram referidos):

Falar tantas línguas, com tanta gente, gesticular e reclamar em português para me conseguir fazer entender. Espanhol, francês, inglês, italiano, vou buscar um bocadinho daqui, um bocadinho dali, et voilá!



Mas há alguns efeitos secundários curiosos:

- A Inês pediu um "Permesso, f&$#-se!" para conseguir passar por entre a multidão.
- Ai é cada vez mais a minha expressão preferida, principalmente quando me atrapalho.
- Sinto que o meu inglês está a tornar-se cada vez mais básico.
- O que escrevo em português parece vindo de um neandertal.
- As pessoas poderão achar que estamos só a querer dar uma de bílingues.


Eu hablar português. Eu swear. Mas às voltas dimentico-me!

Peripécias de uma pseudo-imigrante

Hoje estive na esquadra da polícia. 

Sem contar com os 50 minutos que tive de passar numa sala de espera gélida e feia, nem correu mal. Pensei muito na vida e, de vez em quando, dava-me um nó na garganta. Sejamos objectivos: ninguém me fez mal. Ninguém me levou a casa, a família, o dinheiro. Levaram-me o porta-moedas e o meu adorado casaco. Fiquei com pena principalmente pelo casaco, porque os documentos posso arranjar forma de recuperar, trata-se apenas de ter paciência. Sentia-me orgulhosa por estar a conseguir ser racional, e sentir-me bem quanto ao assunto. Aproveitaram que bebi uns copos a mais e foram espertos. Fizeram-no com muitos outros estudantes de Erasmus. Enfim.

Sentei-me na sala de espera, cheia de sono, cheia de frio, com tanta fome que ouvi uma bomba nuclear dentro do meu estômago. "Podia ser pior." Olhei em frente, havia uma porta que dizia ufficio immigrazione.



Fico satisfeita por existir o espaço Schengen, por estar noutro país mas ser tratada como se estivesse no meu próprio. Fiquei com pena dos imigrantes que têm tantas dores de cabeça por causa de papeladas, vistos, enfim. O meu pai era imigrante, e talvez seja por isso que sinto uma especial compaixão por estas situações. Ele não só não percebia bem o país a que chegava, como era olhado com desdém.

"Então eu não estou nada mal!"

O polícia que me atendeu foi assertivo mas falava com um certo carinho, dizendo aquelas coisas que sabem bem ouvir quando nos sentimos vulneráveis. 

Queres uma pastilha? Estudas na Sapienza, também estudei lá! Tenho imenso carinho por essa universidade. Adoro fado. Quando nasceste, eu já era polícia.

Estas intervenções, alternadas com diálogos de carácter mais formal e burocrático, deram-me vontade de o abraçar e de lhe agradecer por se estar a dar ao trabalho de ser tão atencioso. Não o fiz, embora o aperto de mão que lhe dei no final tivesse sido igualmente inesperado.
Não consegui deixar de pensar que isto me estava a fazer crescer, que isto no fundo era bom para mim: para aprender, para enrijecer. Quase que me via de fora, através de uma lente.

Terminado todo o processo, entrei no super-mercado mais próximo e comprei legumes para fazer uma enorme sopa, que me aquecesse o coração. E o dia acabou comigo e com a Inês, com quem divido a casa, a mudarmos lençóis, a lavarmos a loiça, a limparmos a casa, a procurarmos uma lufada de ar fresco. 

Em conclusão, continuo a achar que Erasmus está a fazer-me bem - não sei se será "apesar dos percalços" ou, no fundo, "devido aos percalços".

Aquele astral médio, que podia ser pior.

Acho que nunca conseguiria viver verdadeiramente o espírito italiano se não me tivessem roubado a carteira. Já me sinto mais parte da malta. Agora é hora de ir à polícia, à embaixada, e a outros locais que tais. Não perdi mais do que 5 euros e documentos. Que desperdício de roubo. Mais notícias em breve.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Coisas que sinto quando conheço gente nova em Erasmus

Passei o fim-de-semana em viagem com a ESN, visitei Veneza, Verona e Pádua. Ontem à noite saí, encontrei-me com malta de Erasmus, bebemos um copo, trocámos mil e uma impressões. O que tenho notado na interacção entre dois (ou mais) erasmianos:
1. Não sinto qualquer constrangimento quando quero conhecer alguém, simplesmente vou e conheço.
2. Raramente sei o nome da outra pessoa nos primeiros minutos de conversa. Às vezes nem chego a saber. Há coisas tão mais importantes a saber que, de repente, dou-me conta e "Ah, mas espera aí, como é que tu te chamas?" e segue-se aquela cordial apresentação que deveria ter surgido antes da conversação.
3. Raramente decoro os nomes das pessoas. Se eu já era má com isso, agora sou ainda pior. Há tantos nomes que nunca ouvi na vida, que rapidamente se desvanecem da minha cabeça.
4. A conversa resulta num misto de italiano e de inglês. E quando queremos insistir no italiano, para praticar, voltamos a falar inglês sem darmos por isso.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Il Primo Giorno - Eu vou, porque não?

Estou espantada com a quantidade de coisas que trouxe. É demasiado. Eu sou sempre tão sucinta nas minhas malas de viagem, desta vez exagerei, confesso. Tinha medo. Medo que me faltasse alguma coisa; medo do vazio; medo das saudades; tanto medo de me sentir tão longe de casa, que trazer tudo e mais alguma coisa acabaria por tapar a ferida como um penso rápido, para não custar tanto. Tentei a todo o custo trazer a casa para aqui e só me apercebi disso ontem à noite, quando me deparei com um excesso de peso na bagagem e tive de me pôr a tirar coisas aleatoriamente. 
Cheguei ao aeroporto às 5h e tal da manhã - é óbvio que não dormi nada, não é? - com um pequeno mas chato nó na garganta e um peso estranho no peito. Chorei, claro que chorei, mas fiz um esforço para me manter calma. Credo, também não estou a ir para a guerra!
Conheci um enorme pedaço de mim nas últimas horas. Assim que entrei naquela zona onde só entra quem vai viajar, olhei mais uma vez para trás, larguei mais uma ou outra lágrima, acenei e tentei sorrir, e encarei o caminho. De repente, nasceu-me uma calma dentro da barriga. Era uma calma difícil de domar porque, de vez em quando, lá aparecia de soslaio o nó na garganta. 
No fundo, tratava-se de fintar as emoções. O que é que eu quero agora? Chamar os violinos e narrar saudosa e dramaticamente o momento era uma forte tentação, mas obriguei-me a manter-me objectiva. A viagem de avião serviu para duas coisas: para uma intensa reflexão - ralhei comigo, sem ser austera - e para dar um cochilo.


E, a partir daí, tudo tornou-se mais fácil.

Ouvi o Caetano no avião, especialmente esta música, vezes sem conta.

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta noticia?
Eu vou, por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou, porque não?
Porque não?


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Cenas que fazem uma pessoa pensar.

Em Lisboa, tinha de pedir sempre um café curto, às vezes "muito curto".

Em Roma, tenho de pedir um café lungo.



Em ambos os casos, a quantidade servida é a mesma.
Relativismo cultural!

domingo, 8 de fevereiro de 2015

La prima festa

A primeira noite de festa em Roma foi na sexta-feira passada. Foi organizada pela ESN que, pelo que percebi, funciona como uma associação de estudantes para o pessoal em Erasmus. Mais do que a festa em si, o convívio foi fantástico. Dei por mim a pensar que, afinal, estar cinco meses em Erasmus não seria tão difícil assim! É claro que o gin tónico ajudou. Se calhar demais. O regresso a Lisboa estava marcado para o dia seguinte e, não sei bem como, esqueci-me disso durante a festa e, assim sendo, cheguei ao hotel às 6h, antecipando uma bela de uma ressaca. Mas feliz.
No dia seguinte a minha mãe acordou-me. O check out era às 11, e já não faltava muito.
E, de repente, o vazio. 
Acabou-se a semana de férias. É o último dia que estás em Roma com a mamã. Daqui a uns dias, és só tu.

O vazio misturava-se com o entusiasmo e criava assim uma coisa meio estranha de se identificar. Lembrei-me de ter conversado com uma eslovena chamada Ana, na noite anterior, sobre as saudades. Ela disse-me que o que lhe custou mais foi deixar o sobrinho. E depois lembrei-me que não existe essa palavra em italiano, nem em inglês.

Está na altura de crescer. 

Trovare una casa a Roma.

Encontrar uma casa/um quarto em Roma é bastante fácil. Conseguir um preço acessível, uma localização aceitável (tipo daquelas que não precises de apanhar 37 comboios) e uma casa decente, já é mais difícil. Mas se pensarmos que os senhorios são completamente doidos, completamente italianos, que não falam inglês e que se estão nas tintas para seja o que for, a coisa fica realmente complicada.

Eu, à cautela, consegui uma casa antes de ir. Mas, antes de saber desta, marquei uma semana num hotel, para passear com a minha mãe e para vermos quartos. A ideia era regressar a Lisboa, marcando o regresso a Roma para o fim do mês, mais perto do começo das aulas. Entretanto, acabei por marcar o regresso para dia 12, uma vez que este é o mês das festas e dos convívios.

Esta casa está no top de casas em Roma, por um número indeterminado de factores. Não é mal situada, mas longe da faculdade. A zona é calma. O preço é relativamente alto, sobretudo tratando-se da casa que é, mas dentro do leque de preços que se vê nos anúncios. Partilho a casa com uma colega de faculdade, cada uma com o seu quarto, o que também é um bónus: estudamos a mesma coisa, somos as duas portuguesas e estamos à vontade para receber visitas. Não temos ninguém a chatear-nos a cabeça.
Mas não temos sala. O esquentador da cozinha não funciona bem e deita água. Um balde tem de ser colocado por cima dos armários, debaixo do esquentador, a cada X horas. As anteriores inquilinas fizeram questão de referir que a senhoria já sabe, mas não lhe interessa para nada. Aparece uma vez por mês para receber o dinheiro e sai como entrou. A cozinha é demasiado pequena para se estar, quanto mais para se receber visitas. Soubemos também que a vizinhança é, no geral, um pouco sacana... o que não é grave, mas é desagradável.
Eu tentei fazer uma retrospectiva quanto a anúncios vistos, e achei que, apesar de tudo, a casa é um achado. Mas vamos ter uma dor de cabeça com a questão do esquentador e da senhoria. Além disso, não havendo espaço para trabalhar, seria interessante ir até à faculdade fazê-lo, fora do tempo de aulas - não temos aulas todos os dias. Podia ser pior, mas levamos cerca de 1h a ir, com andar a pé pelo meio desde o comboio até a uma estação de metro.

A Inês ainda não tinha chegado a Roma. No Welcome Day da faculdade conheci duas espanholas que conseguiram uma excelente casa, com cozinha enorme (mas sem sala, claro), por um valor bem abaixo do nosso, a 10 minutos da faculdade, numa zona movimentada e cheia de jovens! Nasceu então em mim o bichinho de procurar alguma coisa melhor, mais fidedigna. O que outrora parecia impossível, tornava-se agora numa hipótese plausível, apesar de improvável.

Por isso, decidi ir ver uma casa que me pareceu mais espaçosa, sem dúvida mais perto da faculdade, e com zona de estar. Nesta, teríamos de partilhar a casa com mais gente, mas não faz mal.

1. Enviar um e-mail à senhora que publicou o anúncio;
2. Confirmar o preço de cada quarto;
3. Obter, como resposta, "Amanhã às 12h Obrigada".

E lá fui eu, com a minha mãe. Chegámos 15 minutos atrasadas, mas eu sabia que não seria grave. Afinal, os italianos também chegam atrasados a tudo. Tocámos à campainha e ninguém abriu. Mas, entretanto, saíram uns senhores do prédio (bem simpáticos), e ajudaram-nos a identificar o andar. Em Roma, é tudo diferente. As campainhas não identificam o andar, mas sim o proprietário. Vemos o andar na caixa de correio, já dentro do edifício. O prédio era velho, o elevador era muito engraçado, apertado, e diferente de tudo o que já vi.
Já no quarto andar, tocamos novamente à campainha, e abre-nos a porta um rapaz que viemos a descobrir ser um israelita estudante de medicina, que vive na casa. E eis que conhecemos o proprietário, com o mesmo apelido da senhora com quem troquei os e-mails. Magro, despenteado, parecia ter uns quantos analgésicos em cima. Acende um cigarro. Faço-lhe perguntas sobre os quartos, sobre a casa, não sabe responder-me concretamente a nada... parecia que alguém tinha fechado as janelas todas à casa nas últimas duas semanas, depois tinha feito uma maratona de erva, cigarros e exercício puxado (porque tresandava a suor/roupa suja/ sei lá o quê) só para tornar a casa mais vivida. Mas, quanto à limpeza, há sempre solução. No entanto, um dos quartos era estupidamente pequeno. Nem sequer tinha cama, e acredito que não caberia ali. Mas o senhor dizia que sim, que cabia perfeitamente. Podíamos entrar quando quiséssemos, podíamos ficar até quando quiséssemos, enfim. Não havia regras.

Fiquei mal impressionada, apesar de já ter sido avisada de que este tipo de quartos são os mais normais. Fiquei de dizer alguma coisa mais tarde, e disse. Enviei um e-mail a dizer que um dos quartos era, infelizmente, demasiado pequeno. A resposta que recebi foi num tom passivo-agressivo, como quem me quer convencer de que é ali que eu devo ficar. Que o preço é fantástico. Que o quarto é demasiado pequeno, mas que nós somos amigas, por isso podemos conviver no quarto maior. Que não estamos a tomar uma boa decisão.

Ok. Obrigada. Mas não.

Sábado encontrei o anúncio perfeito! Meu Deus. Tudo como eu queria, e uma senhoria excepcionalmente responsável, atenciosa, fiquei em êxtase! E a casa aparenta ser tão melhor que a nossa! Seriam quartos partilhados, mas tantas casas-de-banho, e uma sala! Senhores, uma sala!!!!

Boh, como se diz. Agora fico à espera que chegue dia 12 para ir vê-la. E vamos cruzar os dedos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ci sono ancora molte cose da fare

Chamo-me Catarina, vivo em Lisboa, tenho 23 anos. Estou no segundo ano de mestrado e estou prestes a embarcar numa experiência que vai mudar a minha vida, mas para a qual me tenho preparado nos últimos meses. É uma experiência cada vez mais comum entre os jovens hoje em dia, e ainda bem. Mas, apesar de me considerar independente, nunca saí de casa!
Vou viver em Roma durante cinco meses.

Ci sono ancora molte cose da fare.
Ainda há muita coisa por fazer.