sábado, 21 de fevereiro de 2015

Peripécias de uma pseudo-imigrante

Hoje estive na esquadra da polícia. 

Sem contar com os 50 minutos que tive de passar numa sala de espera gélida e feia, nem correu mal. Pensei muito na vida e, de vez em quando, dava-me um nó na garganta. Sejamos objectivos: ninguém me fez mal. Ninguém me levou a casa, a família, o dinheiro. Levaram-me o porta-moedas e o meu adorado casaco. Fiquei com pena principalmente pelo casaco, porque os documentos posso arranjar forma de recuperar, trata-se apenas de ter paciência. Sentia-me orgulhosa por estar a conseguir ser racional, e sentir-me bem quanto ao assunto. Aproveitaram que bebi uns copos a mais e foram espertos. Fizeram-no com muitos outros estudantes de Erasmus. Enfim.

Sentei-me na sala de espera, cheia de sono, cheia de frio, com tanta fome que ouvi uma bomba nuclear dentro do meu estômago. "Podia ser pior." Olhei em frente, havia uma porta que dizia ufficio immigrazione.



Fico satisfeita por existir o espaço Schengen, por estar noutro país mas ser tratada como se estivesse no meu próprio. Fiquei com pena dos imigrantes que têm tantas dores de cabeça por causa de papeladas, vistos, enfim. O meu pai era imigrante, e talvez seja por isso que sinto uma especial compaixão por estas situações. Ele não só não percebia bem o país a que chegava, como era olhado com desdém.

"Então eu não estou nada mal!"

O polícia que me atendeu foi assertivo mas falava com um certo carinho, dizendo aquelas coisas que sabem bem ouvir quando nos sentimos vulneráveis. 

Queres uma pastilha? Estudas na Sapienza, também estudei lá! Tenho imenso carinho por essa universidade. Adoro fado. Quando nasceste, eu já era polícia.

Estas intervenções, alternadas com diálogos de carácter mais formal e burocrático, deram-me vontade de o abraçar e de lhe agradecer por se estar a dar ao trabalho de ser tão atencioso. Não o fiz, embora o aperto de mão que lhe dei no final tivesse sido igualmente inesperado.
Não consegui deixar de pensar que isto me estava a fazer crescer, que isto no fundo era bom para mim: para aprender, para enrijecer. Quase que me via de fora, através de uma lente.

Terminado todo o processo, entrei no super-mercado mais próximo e comprei legumes para fazer uma enorme sopa, que me aquecesse o coração. E o dia acabou comigo e com a Inês, com quem divido a casa, a mudarmos lençóis, a lavarmos a loiça, a limparmos a casa, a procurarmos uma lufada de ar fresco. 

Em conclusão, continuo a achar que Erasmus está a fazer-me bem - não sei se será "apesar dos percalços" ou, no fundo, "devido aos percalços".

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