quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Il Primo Giorno - Eu vou, porque não?

Estou espantada com a quantidade de coisas que trouxe. É demasiado. Eu sou sempre tão sucinta nas minhas malas de viagem, desta vez exagerei, confesso. Tinha medo. Medo que me faltasse alguma coisa; medo do vazio; medo das saudades; tanto medo de me sentir tão longe de casa, que trazer tudo e mais alguma coisa acabaria por tapar a ferida como um penso rápido, para não custar tanto. Tentei a todo o custo trazer a casa para aqui e só me apercebi disso ontem à noite, quando me deparei com um excesso de peso na bagagem e tive de me pôr a tirar coisas aleatoriamente. 
Cheguei ao aeroporto às 5h e tal da manhã - é óbvio que não dormi nada, não é? - com um pequeno mas chato nó na garganta e um peso estranho no peito. Chorei, claro que chorei, mas fiz um esforço para me manter calma. Credo, também não estou a ir para a guerra!
Conheci um enorme pedaço de mim nas últimas horas. Assim que entrei naquela zona onde só entra quem vai viajar, olhei mais uma vez para trás, larguei mais uma ou outra lágrima, acenei e tentei sorrir, e encarei o caminho. De repente, nasceu-me uma calma dentro da barriga. Era uma calma difícil de domar porque, de vez em quando, lá aparecia de soslaio o nó na garganta. 
No fundo, tratava-se de fintar as emoções. O que é que eu quero agora? Chamar os violinos e narrar saudosa e dramaticamente o momento era uma forte tentação, mas obriguei-me a manter-me objectiva. A viagem de avião serviu para duas coisas: para uma intensa reflexão - ralhei comigo, sem ser austera - e para dar um cochilo.


E, a partir daí, tudo tornou-se mais fácil.

Ouvi o Caetano no avião, especialmente esta música, vezes sem conta.

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta noticia?
Eu vou, por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou, porque não?
Porque não?


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