segunda-feira, 13 de abril de 2015

Gianicolo

Um dos meus lugares preferidos em Roma é, até agora, Gianicolo, por várias razões:
- É perto de onde eu moro;
- Oferece uma vista deslumbrante sobre a cidade;
- Apesar dos turistas, é uma zona tranquila e serena, cheia de verde;
- É o cenário da cena inicial do filme La Grande Bellezza, do Sorrentino (aconselho toda a gente a ver, dizer que é magnífico não é suficiente, abaixo o trailer).

Ontem fui lá pela segunda vez, com a Sara que me veio fazer uma rápida visita. Fartámo-nos de conversar sobre as várias interpretações do filme, sobre as várias interpretações da vida em geral, em fim. Foi uma boa lavagem intelectual. Tenho vontade de lá voltar rapidamente, desta feita sozinha. E as imagens falam por si.







É como ir a Roma e não ver o Papa

Pensava muito nesta expressão e ria-me, "é como ir a Roma e não ver o Papa". Porque eu estava em Roma há quase dois meses e, realmente, ainda não o tinha visto. Já cá estive anteriormente, e não o vi. Aliás, estive cá quando o Papa ainda era o Bento XVI. Não o vi e pensei que também não era grave, ficaria para uma próxima. É claro que não aconteceu.

O fim-de-semana de Páscoa serviu para ver o Papa duas vezes. A primeira no sábado, no Colosseo - acabei por lá parar um bocado ao acaso. A segunda na Piazza di San Pietro, no domingo.

A Páscoa nunca teve para mim grande significado, o que neste momento foi estranhamente bom. Na véspera do domingo de Páscoa fazia um sol lindíssimo. O dia de domingo amanheceu sombrio e a ameaçar um temporal daqueles. E foi o que aconteceu. Choveu muito. Conseguimos um bom lugar para ver a cerimónia mas, dadas as circunstâncias, não adiantou de muito. Chovia a cântaros e os guarda-chuvas não eram grande ajuda, sobretudo limitavam a visibilidade a 100%. Eu tremia de frio e os meus pés estavam mergulhados numa pequena poça que eram os meus ténis. Esperámos 1h30 pelo começo da cerimónia. O Papa era uma pequena ervilha branca lá ao fundo e eu perguntava-me o que é que estava eu ali a fazer quando a minha cama estava tão quentinha...
E de repente comecei a pensar no significado da Páscoa. Na simplicidade da vida. No sofrimento de Cristo por nós. No meu sofrimento ali à chuva. É difícil de explicar como mas, subitamente, tudo me estava a fazer sentido e não poderia ter sido de outra forma. Era ali que eu tinha de estar, estava a precisar daquilo. Estava realmente a precisar de me reconectar comigo mesma.
A experiência de Erasmus implica (pelo menos para mim) estar tudo a acontecer ao mesmo tempo: muita gente, conversa, eventos, viver a cidade ao máximo, viver os novos amigos ainda mais, descansar pouco e festejar muito. Faz parte. Mas também deve fazer parte um pouco de calma e o dia de Páscoa incutiu em mim a calma de que eu estava a precisar. E também uma constipaçãozinha.
Cheguei a casa, tirei a roupa ensopada, vesti um pijama e enfiei-me dentro da cama. À noite, fizemos um jantar tranquilo, a malta cá de casa e eu, o nosso jantar de Páscoa em família. Em casa. Felizes.





terça-feira, 24 de março de 2015

El Taxi è una canzone così noiosa quando ci svegliamo...

Toda a gente sabe que sou preguiçosa. Adoro dormir. Mas também adoro correr, e infelizmente estas duas coisas não são conciliáveis... Mas pronto. Adoro os meus colegas de casa. Foram tão animados ao tentarem acordar-me, e ainda gravaram o momento. E eu digo no filme (em inglês) "Eu realmente odeio esta música", o que não é verdade. Adoro dançá-la. À noite. Na discoteca. Não quando estou a acordar.


Everyone knows I'm lazy. I love to sleep. But I really love to run as well, and unfortunately these two things don't go together... But yeah. I love my flatmates. They were so cheerful trying to wake me up, and even recorded it. And I say "I really hate this song" which is actually not true. I love to dance it. At night. At the club. Not when I'm waking up.

domingo, 22 de março de 2015

Una Cena Veramente Portoghese

Uma das coisas que mais falta me fazem em Roma é a comida de casa. Acho que é um clássico, pelo menos entre os "erasmiani" que conheço. Em casa temos uma ligeira influência do nordeste brasileiro na comida que preparamos. E também preparamos muita comida macrobiótica.
Aqui vai uma lista das comidas que me fazem muita saudade:
- peixe grelhado com arroz e salada;
- feijoada brasileira e portuguesa;
- moqueca feita pela minha mãe;
- sopa!

A minha mãe fez-me uma visita... o que foi óptimo por várias razões! Mas ela trouxe enchidos e queijo de cabra, e decidimos preparar uma feijoada à portuguesa.
O Miguel foi eleito cozinheiro, porque é português e porque também estava entusiasmado por comer - e por cozinhar - a feijoada.
Os meus colegas de casa experimentaram-na pela primeira vez e adoraram! A casa cheirava tão bem, foi um momento tão tranquilo, com alguma música brasileira no fundo - e depois de alguns copos de vinho, não podiam faltar os clássicos latinos que batem nas festas de Erasmus por aqui.

A noite acabou em beleza em Trastevere, sentámo-nos numa linda esplanada e experimentámos uma deliciosa cerveja artesanal!
A minha mãe volta para Lisboa amanhã... eu vou ter aulas e a vida vai voltar ao normal... Purtroppo!




One of the things I miss the most in Rome is food from home. I think it is a classic, at least among the "erasmiani" I know. Back home, we have a slight influence from the northeast of Brazil in the food we prepare. We also cook a lot of macrobiotic dishes.
Here's a list of food I really miss:
- grilled fish with rice and salad;
- brazilian and portuguese feijoada;
- moqueca made by mom;
- soup!

So my mom came to visit... and this is great in so many ways! But she brought enchidos (which are a kind of sausage, I don't the translation to english) and goat cheese and we decided to prepare a portuguese feijoada.
Miguel was the nominated cook, as he is portuguese and he was also excited about eating - and cooking - the feijoada.
My flatmates tried it for the first time and they loved it! The house smelled so good, it was such a chilling moment, with some brazilian music in the background - and after some glasses of wine classic latin hits from Erasmus parties.

Afterwards we went to Trastevere, sat in a beautiful esplanade and tried a delicious craft beer!
Mom's leaving tomorrow, I'm having classes and life is going back to normal... Purtroppo!

segunda-feira, 16 de março de 2015

Fez Pop Na Sanita!

Ontem o meu belo alcatel, que me servia de telemóvel italiano, caiu na sanita.
Recuperei-o, sequei-o, e meti-o num frasco de arroz cru.
Dá-me vontade de rir. Mas às vezes caio em mim e apercebo-me de que é realmente uma situação lixada...
Vamos aguardar pelo melhor. Custou-me €60!
Oh universo, que maravilhosas voltas dás.


Yesterday my beautiful alcatel, which served me as my italian phone, fell down the toilet seat.
I got it back, I dried it and I put it in a jar with raw rice.
Makes me laugh. But from time to time I realize that it is actually a fucked up situation...
Let's hope for the best. It cost me €60!
Oh, universe, you and your wonderful spins.

Rainy Day, Running Day


Now I'll also update this blog in english, for my foreign friends have the right to understand what's going on here. Translation at the bottom of the text.



Hoje fomos correr. Pensava que seria uma corrida normal - tenho corrido aqui por Roma, mas nada de mais. Quando estava prestes a dar a volta para regressar para casa, a Alexandra sugeriu que continuássemos a correr até ao Colosseo. Fiquei tão entusiasmada, não podia dizer que não. E lá fomos nós.

Acabámos por ir desde Trastevere até ao Colosseo. Até à Piazza Venezia. Até à Fontana di Trevi. Até à Piazza Venezia outra vez.

Achei que esta era a forma mais fixe de visitar a cidade. Desta vez começámos com lugares que já conhecíamos. Da próxima, tentamos outros lugares giros.

Não estava muito frio, mas estava a chover imenso. Na verdade, até soube bem. Mas depois chegou a noite... e os autocarros não, o que significa que tínhamos de fazer uma escolha: ou congelávamos à espera do autocarro, ou continuávamos a correr para nos mantermos quentes. Eu estava já completamente molhada: os meus pés, o meu cabelo, a minha roupa... Eu não tinha roupa quente! O meu corpo estava muito cansado e estava a ficar tanto frio... Já tínhamos corrido mais de 8km, praticamente sem pararmos!
E então... de alguma forma, conseguimos encontrar forças para voltarmos para casa, a correr, congeladas, mas felizes.

O primeiro de muitos.






Today we went running. I thought we were going out for a normal run - I've been running here in Rome, but not that much. When I was about to turn around and run back home, Alexandra suggested that we kept running until we reached the Colosseo. I got so excited, I couldn't say no. So we went.

We ended up going from Trastevere to Colosseo. To Piazza Venezia. To Fontana di Trevi. To Piazza Venezia again.

I thought this was the coolest way to visit the city. This time we started with places we already knew. Next time we'll try other cool places.

It was not too cold, but it was raining a lot. It felt good, actually. But then the night came... but not the buses, which mean we needed to make a choice: whether we get really cold waiting for the bus to take us home, or we continue running to be warm. At this point, I was completely soaked wet: my feet, my hair, my clothes... I didn't have warm clothes! My body was so tired and it was getting really cold... We had already completed more than 8 km, barely stopping!
And then... we somehow found the strength to come home, running, freezing, being happy.

The first of many.

domingo, 15 de março de 2015

Il Mercato di Porta Portese

Hoje acordei (MUITO) cedo e fui ao mercado de Porta Portese, que acontece na zona de Trastevere (a 15 minutos de minha casa) todos os domingos. Infelizmente começou a chover sem parar a meio do passeio. Eu e a Alexandra precisávamos urgentemente de um porta-moedas... e foi a única coisa que não comprámos, claro! Este mercado fez-me lembrar a Feira da Ladra, mas está num nível acima. Encontra-se de tudo... desde panelas, aspiradores, perfumes de marca originais, skates, tapetes, bibelôs, escovas de dentes, ferramentas, computadores, teclados, pão, queijo, enchidos, livros, candeeiros, molduras... Tudo! A preços estupidamente baixos. O ideal para quem anda a contar trocos. E ainda dá para regatear.

Resumo das minhas compras:

- o que não precisava 
- o que realmente precisava X

E não consegui ver metade do que queria. Por isso, tenho de lá voltar para a semana. E nas outras todas a seguir.









sábado, 14 de março de 2015

Vino, Vino, Vino!!

Ontem fomos a um festival que chama Enotica, e que se declara como sendo o Festival do Vinho e da Sensualidade. Dura tres dias e fomos ao primeiro. Chegamos tarde, pagamos cinco euros para entrar e ja nao houve provas de vinho para ninguem. O ambiente era muito alternativo e interessante, bem mais interessante do que as quinhentas festas Erasmus a que temos ido. As festas Erasmus sao engracadas, sao um optimo pretexto para conhecer malta e criar belas memorias! Servem para a fase de adaptacao. Agora chegou o momento de explorar mais a cultura verdadeiramente romana. Sinto que estou em falha nesse aspecto.




O festival era enorme, no Forte Prenestino, um espaco ocupado e que serve de palco para iniciativas sociais-culturais-artisticas-politicas. Toda a decoracao do espaco transporta-nos para outro lugar qualquer, para outro mundo. As pessoas sao todas diferentes, diferentes de tudo! Fez-me muito lembrar o tipo de ambiente que se vive na noite berlinense. Lembrou-me tambem alguns lugares de Lisboa que, de longe, nao tem a mesma representatividade. Estava tanta gente e havia tanto para ver e fazer, que estavamos parvos. Enquanto uns amigos se sentaram a beber um vinho, a Alexandra e eu decidimos ir fazer a volta da praxe. Na verdade, nao estavamos propriamente em condicoes de beber depois da noite anterior! Enfim, vida de Erasmus...
Vimos uma performance de actores dificil de explicar. Estavamos em extase. Maravilhadas. Era isto que nos estava a faltar. Provamos comidas vegetarianas meio estranhas, um vinho, espreitamos tudo o que havia para ver. E, depois, sentamo-nos a conversar sobre a vida, sobre nos... e comecei a achar a nossa conversa saida de algum tipo de filme, sobretudo pelo ambiente a nossa volta. Toda a gente fumava charros, pessoas de todas as idades, feitios, nacionalidades. Meia-luz avermelhada. Uma musica envolvente que mexia comigo.

Vi um flashback de tudo o que tem acontecido, de como mudei, e de como mudar nos faz pensar no futuro de forma diferente. Como mudar nos assusta e, ao mesmo tempo, e reconfortante. Pensei em como estou a adorar esta experiencia e em como me deixa triste notar que esta a passar a correr. Pensei em como devia escrever mais, porque me faz bem. E, no final, senti-me tao feliz!

Dia seguinte. Nivel de ressaca 0%. Procrastinacao: 100%
A Alexandra e eu passamos o dia a fazer uma coisa que eu nao fazia provavelmente desde os 12 anos. Passamos o dia todo de pijama, dormimos, vimos videos, conversamos, cantamos, dormimos, comemos bolachas, rimos... Normalmente diria que foi um dia desperdicado, mas foi bom.



PS: Os computadores gregos nao tem, naturalmente, a nossa acentuacao disponivel. Talvez mais tarde corrija.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Cinco de cada canto

Na minha casa habitam, para além de mim, quatro seres-humanos aproximadamente da mesma idade, cada um de cada nacionalidade:
- um alemão chamado Julius;
- uma holandesa chamada Linda;
- uma austríaca chamada Sara;
- uma escocesa chamada Ciara (mas lê-se Keera).



Os primeiros três entendem-se a falar alemão. Quando à escocesa, toda a gente percebe sempre o que ela diz. Eu sou a única mediterrânica, a que estabelece a ponte entre Itália e os restantes países, a única que sabe falar italiano e a quem se deve recorrer quando surgem questões de maior.

Às vezes fazemos uma sessão de aprendizagem do italiano. É interessante ver como resulta tão mais fácil para um português falar e aprender esta língua. Eles têm dificuldade com tantas e tão pequenas coisas que eu nem imaginaria... e apetece-me enfiar tudo o que sei num saco e oferecer-lhes: tomem, aqui têm tudo o que precisam.

Às vezes surge na casa um momento-chave de descoberta cultural. Normalmente, entre mim e eles porque, de alguma forma, as culturas deles têm mais a ver umas com as outras do que com a minha. O primeiro choque foram os guardanapos. 

Guardanapos? Para quê? Para limpar a boca durante a refeição... vocês não usam? Não... normalmente não!

No outro dia, depois de jantar, o Julius mostrou-me orgulhoso o seu guardanapo, praticamente limpo: Vês como não preciso?! Limpíssimo!

Seriam uns pequenos porquinhos, não fosse a abébia da cultura... temos de tolerar mais, quando lidamos com outras pessoas em Erasmus. Afinal, pode ser tudo apenas uma questão de perspectiva. Este facto pode também servir de desculpa para muita coisa... 


"Ah, no meu país é normal deixar o quarto todo desarrumado, é até sinal de boa educação!"
Ontem passei o dia todo fora de casa, era já de noite quando cheguei.

Julius:
- We can tell when you and Linda are not in the house for a while. There was a huge pile of dirty dishes near the sink and no one would wash them!
- Dá para perceber quando é que tu e a Linda não estão em casa durante algum tempo. Amontoou-se no lavatório uma pilha de loiça suja que ninguém queria lavar.

Eu:
- Thanks Julius! But you should tell my mom that. Back in Portugal, she thinks I'm messy and careless about cleaning.
- Obrigada Julius! Mas devias dizer isso à minha mãe. Lá em Portugal, ela pensa que sou desarrumada e despreocupada com as limpezas.

Julius:
- I better not. If I tell her this, she will kick you out of the house because she will realize that that's the best for everyone.
- É melhor não. Se eu lhe disser, ela vai-te expulsar de casa porque vai perceber que é o melhor para todos.

Estive sem internet, mas ainda estou aqui!

Duas semanas sem internet em casa é muito tempo. Chega a ser desesperante, mas tentei manter uma atitude receptiva a todo o tipo de situações inesperadas. 
Estar sem internet obrigou-nos, cá em casa, a conversar, a trocar opiniões, a falar pormenorizadamente daquele vídeo fixe que se eu pudesse mostrava-to agora mesmo!
Obrigou-me a ter de tomar mais decisões sozinha, sem os valiosíssimos conselhos da minha mãe. Antes era tão fácil ligar o skype e consultá-la para tudo e mais alguma coisa! Pensei que sim, que realmente era demasiado fácil, que nem sequer fazia sentido. Cheguei a ficar enervada, mas percebi que tinha de aprender a:

1. Saber decidir e agir por mim em situações críticas, confiando aos deuses o resultado do feito;
2. Lidar com a frustração de tomar más decisões - sim, porque eu sei bem que, afinal de contas, a minha mãe ter-me-ia dado as orientações necessárias para não cometer erros crassos;
3. Aprender com os erros.

Aprender com os erros não é só fazer algo de estúpido, chorar, aceitar e seguir em frente, jurando nunca mais fazer de novo. Também aprendi isto agora. Engraçado como eu pensava que sabia tanta coisa!

Aprender com os erros tem sido mais ou menos assim: vou pensar muito nisto e tomar uma decisão inteligente. Chegado o momento, penso: "Uau, é a melhor decisão que estou a tomar na minha vida!". E, obviamente, depois não é. Possivelmente até será a pior. (Nota: em 99% dos casos, encontro-me sóbria). Normalmente é nestes casos que envio uma mensagem à minha mãe. Ela tem tido bastante paciência, por sinal.
Para a próxima não faço assim e pelo menos aprendi, concluo. Mas há tantas próximas diferentes... Não consigo ainda distinguir se ando com azar ou se estou simplesmente a viver uma vida normal, longe do ninho. Se calhar o plafon de erros acaba este mês. Depois é sempre a abrir.

Tenho tido imensa festa, também. Não é nada mau. Se estivesse em Portugal, não teria vontade de manter este andamento. Mas é Erasmus, sei lá. Há uma força qualquer invisível que nos chuta para fora de casa, e depois apanhamos-lhe o jeito. Parece que não dá para largar. Ainda por cima, temos só mais cinco meses, bora aproveitar todas as oportunidades para fazermos figuras de idiotas e rirmo-nos no dia seguinte! Estarei a mudar? Ou somos necessariamente diferentes quando estamos longe de casa? Não sei, mas acho que me estou a habituar à ideia e até gosto.
Combinei com o Julius (alemão com quem vivo) que temos de ir correr frequentemente, e fazer algum exercício físico. Disso sinto falta. Não sei bem ainda como é que vou articular as noitadas e a vida saudável, mas tem de haver uma maneira. Ontem estava a conversar com ele, e comecei com este discurso inspiracional, de como devíamos acalmar com as festas, tornarmo-nos mais saudáveis, fazermos um esforço por acordar mais cedo...
Ele ouviu, atento, e eis que me perguntou:

- You know what they call people like you, here in Italia?
- Sabes como é que eles chamam a pessoas como tu, aqui em Itália?

- What?
- O quê?

E então, no seu belo sotaque alemão, rematou:
- Toxico-dipendente.

Hoje alguém partilhou no facebook este artigo sobre a experiência Erasmus, que me fez imenso sentido, sobretudo o número 8, respeitando a espanhóis e portugueses. Mas sobretudo espanhóis. Meu deus. Estão em todo o lado!!


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Eu. falar. Língua do Camões.

Para mim é das coisas que me dão mais gosto em Erasmus (para além da comida e da bebida, que vêm em primeiro lugar, não necessariamente pela ordem em que foram referidos):

Falar tantas línguas, com tanta gente, gesticular e reclamar em português para me conseguir fazer entender. Espanhol, francês, inglês, italiano, vou buscar um bocadinho daqui, um bocadinho dali, et voilá!



Mas há alguns efeitos secundários curiosos:

- A Inês pediu um "Permesso, f&$#-se!" para conseguir passar por entre a multidão.
- Ai é cada vez mais a minha expressão preferida, principalmente quando me atrapalho.
- Sinto que o meu inglês está a tornar-se cada vez mais básico.
- O que escrevo em português parece vindo de um neandertal.
- As pessoas poderão achar que estamos só a querer dar uma de bílingues.


Eu hablar português. Eu swear. Mas às voltas dimentico-me!

Peripécias de uma pseudo-imigrante

Hoje estive na esquadra da polícia. 

Sem contar com os 50 minutos que tive de passar numa sala de espera gélida e feia, nem correu mal. Pensei muito na vida e, de vez em quando, dava-me um nó na garganta. Sejamos objectivos: ninguém me fez mal. Ninguém me levou a casa, a família, o dinheiro. Levaram-me o porta-moedas e o meu adorado casaco. Fiquei com pena principalmente pelo casaco, porque os documentos posso arranjar forma de recuperar, trata-se apenas de ter paciência. Sentia-me orgulhosa por estar a conseguir ser racional, e sentir-me bem quanto ao assunto. Aproveitaram que bebi uns copos a mais e foram espertos. Fizeram-no com muitos outros estudantes de Erasmus. Enfim.

Sentei-me na sala de espera, cheia de sono, cheia de frio, com tanta fome que ouvi uma bomba nuclear dentro do meu estômago. "Podia ser pior." Olhei em frente, havia uma porta que dizia ufficio immigrazione.



Fico satisfeita por existir o espaço Schengen, por estar noutro país mas ser tratada como se estivesse no meu próprio. Fiquei com pena dos imigrantes que têm tantas dores de cabeça por causa de papeladas, vistos, enfim. O meu pai era imigrante, e talvez seja por isso que sinto uma especial compaixão por estas situações. Ele não só não percebia bem o país a que chegava, como era olhado com desdém.

"Então eu não estou nada mal!"

O polícia que me atendeu foi assertivo mas falava com um certo carinho, dizendo aquelas coisas que sabem bem ouvir quando nos sentimos vulneráveis. 

Queres uma pastilha? Estudas na Sapienza, também estudei lá! Tenho imenso carinho por essa universidade. Adoro fado. Quando nasceste, eu já era polícia.

Estas intervenções, alternadas com diálogos de carácter mais formal e burocrático, deram-me vontade de o abraçar e de lhe agradecer por se estar a dar ao trabalho de ser tão atencioso. Não o fiz, embora o aperto de mão que lhe dei no final tivesse sido igualmente inesperado.
Não consegui deixar de pensar que isto me estava a fazer crescer, que isto no fundo era bom para mim: para aprender, para enrijecer. Quase que me via de fora, através de uma lente.

Terminado todo o processo, entrei no super-mercado mais próximo e comprei legumes para fazer uma enorme sopa, que me aquecesse o coração. E o dia acabou comigo e com a Inês, com quem divido a casa, a mudarmos lençóis, a lavarmos a loiça, a limparmos a casa, a procurarmos uma lufada de ar fresco. 

Em conclusão, continuo a achar que Erasmus está a fazer-me bem - não sei se será "apesar dos percalços" ou, no fundo, "devido aos percalços".

Aquele astral médio, que podia ser pior.

Acho que nunca conseguiria viver verdadeiramente o espírito italiano se não me tivessem roubado a carteira. Já me sinto mais parte da malta. Agora é hora de ir à polícia, à embaixada, e a outros locais que tais. Não perdi mais do que 5 euros e documentos. Que desperdício de roubo. Mais notícias em breve.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Coisas que sinto quando conheço gente nova em Erasmus

Passei o fim-de-semana em viagem com a ESN, visitei Veneza, Verona e Pádua. Ontem à noite saí, encontrei-me com malta de Erasmus, bebemos um copo, trocámos mil e uma impressões. O que tenho notado na interacção entre dois (ou mais) erasmianos:
1. Não sinto qualquer constrangimento quando quero conhecer alguém, simplesmente vou e conheço.
2. Raramente sei o nome da outra pessoa nos primeiros minutos de conversa. Às vezes nem chego a saber. Há coisas tão mais importantes a saber que, de repente, dou-me conta e "Ah, mas espera aí, como é que tu te chamas?" e segue-se aquela cordial apresentação que deveria ter surgido antes da conversação.
3. Raramente decoro os nomes das pessoas. Se eu já era má com isso, agora sou ainda pior. Há tantos nomes que nunca ouvi na vida, que rapidamente se desvanecem da minha cabeça.
4. A conversa resulta num misto de italiano e de inglês. E quando queremos insistir no italiano, para praticar, voltamos a falar inglês sem darmos por isso.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Il Primo Giorno - Eu vou, porque não?

Estou espantada com a quantidade de coisas que trouxe. É demasiado. Eu sou sempre tão sucinta nas minhas malas de viagem, desta vez exagerei, confesso. Tinha medo. Medo que me faltasse alguma coisa; medo do vazio; medo das saudades; tanto medo de me sentir tão longe de casa, que trazer tudo e mais alguma coisa acabaria por tapar a ferida como um penso rápido, para não custar tanto. Tentei a todo o custo trazer a casa para aqui e só me apercebi disso ontem à noite, quando me deparei com um excesso de peso na bagagem e tive de me pôr a tirar coisas aleatoriamente. 
Cheguei ao aeroporto às 5h e tal da manhã - é óbvio que não dormi nada, não é? - com um pequeno mas chato nó na garganta e um peso estranho no peito. Chorei, claro que chorei, mas fiz um esforço para me manter calma. Credo, também não estou a ir para a guerra!
Conheci um enorme pedaço de mim nas últimas horas. Assim que entrei naquela zona onde só entra quem vai viajar, olhei mais uma vez para trás, larguei mais uma ou outra lágrima, acenei e tentei sorrir, e encarei o caminho. De repente, nasceu-me uma calma dentro da barriga. Era uma calma difícil de domar porque, de vez em quando, lá aparecia de soslaio o nó na garganta. 
No fundo, tratava-se de fintar as emoções. O que é que eu quero agora? Chamar os violinos e narrar saudosa e dramaticamente o momento era uma forte tentação, mas obriguei-me a manter-me objectiva. A viagem de avião serviu para duas coisas: para uma intensa reflexão - ralhei comigo, sem ser austera - e para dar um cochilo.


E, a partir daí, tudo tornou-se mais fácil.

Ouvi o Caetano no avião, especialmente esta música, vezes sem conta.

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta noticia?
Eu vou, por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou, porque não?
Porque não?


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Cenas que fazem uma pessoa pensar.

Em Lisboa, tinha de pedir sempre um café curto, às vezes "muito curto".

Em Roma, tenho de pedir um café lungo.



Em ambos os casos, a quantidade servida é a mesma.
Relativismo cultural!

domingo, 8 de fevereiro de 2015

La prima festa

A primeira noite de festa em Roma foi na sexta-feira passada. Foi organizada pela ESN que, pelo que percebi, funciona como uma associação de estudantes para o pessoal em Erasmus. Mais do que a festa em si, o convívio foi fantástico. Dei por mim a pensar que, afinal, estar cinco meses em Erasmus não seria tão difícil assim! É claro que o gin tónico ajudou. Se calhar demais. O regresso a Lisboa estava marcado para o dia seguinte e, não sei bem como, esqueci-me disso durante a festa e, assim sendo, cheguei ao hotel às 6h, antecipando uma bela de uma ressaca. Mas feliz.
No dia seguinte a minha mãe acordou-me. O check out era às 11, e já não faltava muito.
E, de repente, o vazio. 
Acabou-se a semana de férias. É o último dia que estás em Roma com a mamã. Daqui a uns dias, és só tu.

O vazio misturava-se com o entusiasmo e criava assim uma coisa meio estranha de se identificar. Lembrei-me de ter conversado com uma eslovena chamada Ana, na noite anterior, sobre as saudades. Ela disse-me que o que lhe custou mais foi deixar o sobrinho. E depois lembrei-me que não existe essa palavra em italiano, nem em inglês.

Está na altura de crescer. 

Trovare una casa a Roma.

Encontrar uma casa/um quarto em Roma é bastante fácil. Conseguir um preço acessível, uma localização aceitável (tipo daquelas que não precises de apanhar 37 comboios) e uma casa decente, já é mais difícil. Mas se pensarmos que os senhorios são completamente doidos, completamente italianos, que não falam inglês e que se estão nas tintas para seja o que for, a coisa fica realmente complicada.

Eu, à cautela, consegui uma casa antes de ir. Mas, antes de saber desta, marquei uma semana num hotel, para passear com a minha mãe e para vermos quartos. A ideia era regressar a Lisboa, marcando o regresso a Roma para o fim do mês, mais perto do começo das aulas. Entretanto, acabei por marcar o regresso para dia 12, uma vez que este é o mês das festas e dos convívios.

Esta casa está no top de casas em Roma, por um número indeterminado de factores. Não é mal situada, mas longe da faculdade. A zona é calma. O preço é relativamente alto, sobretudo tratando-se da casa que é, mas dentro do leque de preços que se vê nos anúncios. Partilho a casa com uma colega de faculdade, cada uma com o seu quarto, o que também é um bónus: estudamos a mesma coisa, somos as duas portuguesas e estamos à vontade para receber visitas. Não temos ninguém a chatear-nos a cabeça.
Mas não temos sala. O esquentador da cozinha não funciona bem e deita água. Um balde tem de ser colocado por cima dos armários, debaixo do esquentador, a cada X horas. As anteriores inquilinas fizeram questão de referir que a senhoria já sabe, mas não lhe interessa para nada. Aparece uma vez por mês para receber o dinheiro e sai como entrou. A cozinha é demasiado pequena para se estar, quanto mais para se receber visitas. Soubemos também que a vizinhança é, no geral, um pouco sacana... o que não é grave, mas é desagradável.
Eu tentei fazer uma retrospectiva quanto a anúncios vistos, e achei que, apesar de tudo, a casa é um achado. Mas vamos ter uma dor de cabeça com a questão do esquentador e da senhoria. Além disso, não havendo espaço para trabalhar, seria interessante ir até à faculdade fazê-lo, fora do tempo de aulas - não temos aulas todos os dias. Podia ser pior, mas levamos cerca de 1h a ir, com andar a pé pelo meio desde o comboio até a uma estação de metro.

A Inês ainda não tinha chegado a Roma. No Welcome Day da faculdade conheci duas espanholas que conseguiram uma excelente casa, com cozinha enorme (mas sem sala, claro), por um valor bem abaixo do nosso, a 10 minutos da faculdade, numa zona movimentada e cheia de jovens! Nasceu então em mim o bichinho de procurar alguma coisa melhor, mais fidedigna. O que outrora parecia impossível, tornava-se agora numa hipótese plausível, apesar de improvável.

Por isso, decidi ir ver uma casa que me pareceu mais espaçosa, sem dúvida mais perto da faculdade, e com zona de estar. Nesta, teríamos de partilhar a casa com mais gente, mas não faz mal.

1. Enviar um e-mail à senhora que publicou o anúncio;
2. Confirmar o preço de cada quarto;
3. Obter, como resposta, "Amanhã às 12h Obrigada".

E lá fui eu, com a minha mãe. Chegámos 15 minutos atrasadas, mas eu sabia que não seria grave. Afinal, os italianos também chegam atrasados a tudo. Tocámos à campainha e ninguém abriu. Mas, entretanto, saíram uns senhores do prédio (bem simpáticos), e ajudaram-nos a identificar o andar. Em Roma, é tudo diferente. As campainhas não identificam o andar, mas sim o proprietário. Vemos o andar na caixa de correio, já dentro do edifício. O prédio era velho, o elevador era muito engraçado, apertado, e diferente de tudo o que já vi.
Já no quarto andar, tocamos novamente à campainha, e abre-nos a porta um rapaz que viemos a descobrir ser um israelita estudante de medicina, que vive na casa. E eis que conhecemos o proprietário, com o mesmo apelido da senhora com quem troquei os e-mails. Magro, despenteado, parecia ter uns quantos analgésicos em cima. Acende um cigarro. Faço-lhe perguntas sobre os quartos, sobre a casa, não sabe responder-me concretamente a nada... parecia que alguém tinha fechado as janelas todas à casa nas últimas duas semanas, depois tinha feito uma maratona de erva, cigarros e exercício puxado (porque tresandava a suor/roupa suja/ sei lá o quê) só para tornar a casa mais vivida. Mas, quanto à limpeza, há sempre solução. No entanto, um dos quartos era estupidamente pequeno. Nem sequer tinha cama, e acredito que não caberia ali. Mas o senhor dizia que sim, que cabia perfeitamente. Podíamos entrar quando quiséssemos, podíamos ficar até quando quiséssemos, enfim. Não havia regras.

Fiquei mal impressionada, apesar de já ter sido avisada de que este tipo de quartos são os mais normais. Fiquei de dizer alguma coisa mais tarde, e disse. Enviei um e-mail a dizer que um dos quartos era, infelizmente, demasiado pequeno. A resposta que recebi foi num tom passivo-agressivo, como quem me quer convencer de que é ali que eu devo ficar. Que o preço é fantástico. Que o quarto é demasiado pequeno, mas que nós somos amigas, por isso podemos conviver no quarto maior. Que não estamos a tomar uma boa decisão.

Ok. Obrigada. Mas não.

Sábado encontrei o anúncio perfeito! Meu Deus. Tudo como eu queria, e uma senhoria excepcionalmente responsável, atenciosa, fiquei em êxtase! E a casa aparenta ser tão melhor que a nossa! Seriam quartos partilhados, mas tantas casas-de-banho, e uma sala! Senhores, uma sala!!!!

Boh, como se diz. Agora fico à espera que chegue dia 12 para ir vê-la. E vamos cruzar os dedos.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ci sono ancora molte cose da fare

Chamo-me Catarina, vivo em Lisboa, tenho 23 anos. Estou no segundo ano de mestrado e estou prestes a embarcar numa experiência que vai mudar a minha vida, mas para a qual me tenho preparado nos últimos meses. É uma experiência cada vez mais comum entre os jovens hoje em dia, e ainda bem. Mas, apesar de me considerar independente, nunca saí de casa!
Vou viver em Roma durante cinco meses.

Ci sono ancora molte cose da fare.
Ainda há muita coisa por fazer.